08/02/2026
*“TIO, VAMU VIM DE AZUL AMANHÃ?*
Quando uma criança pequena propõe ao terapeuta um acordo aparentemente simples, como comparecerem vestidos de azul na sessão seguinte, não se trata de um pedido trivial. Trata-se de uma produção simbólica relacional, por meio da qual a criança testa a confiabilidade do vínculo e organiza expectativas quanto à continuidade da relação terapêutica. Nessa perspectiva, garantir o combinado configura-se como uma intervenção clínica.
No setting terapêutico, conforme concebido por Winnicott, a previsibilidade e a confiabilidade do adulto são condições fundamentais para que a criança experimente o terapeuta como um ambiente suficientemente bom. O cumprimento de acordos simples sustenta a continuidade do cuidado e favorece o brincar, a simbolização e a integração psíquica.
À luz da Teoria do Apego (Bowlby), honrar o combinado opera como um microevento de responsividade sensível, contribuindo para a construção de modelos internos de relação baseados em confiança e previsibilidade, essenciais à autorregulação emocional.
Sob a contribuição de Vygotsky, a ação compartilhada assume função mediadora, ao articular o mundo interno da criança à realidade concreta, ampliando sua zona de desenvolvimento proximal no campo emocional.
Do ponto de vista da aprendizagem social (Bandura), o terapeuta atua como modelo ético-relacional ao sustentar a coerência entre palavra e ação, favorecendo aprendizagens implícitas sobre compromisso e confiabilidade.
Em termos clínicos, a não sustentação do combinado, ainda que percebida como irrelevante pelo adulto, pode ser vivenciada pela criança como fragilização do vínculo e ruptura da continuidade relacional, impactando o engajamento terapêutico.
Assim, garantir o combinado não é um gesto lúdico acessório, mas uma conduta técnica e ética que sustenta o vínculo terapêutico, preserva o setting e favorece processos de desenvolvimento emocional consistentes.