18/04/2026
Casa Zita e o Tempo das Ferragens: Memórias do Comércio em Montes Claros
Houve um tempo em que Montes Claros ainda aprendia a ser cidade.
As ruas do centro, de terra batida ou calçamento irregular, eram mais do que caminhos — eram pontos de encontro. O comércio acontecia de forma simples, quase íntima. Nos armazéns, encontrava-se de tudo: do querosene ao tecido, do prego à enxada. Não havia pressa nem especialização. Havia convivência.
Quem precisava de uma ferramenta não procurava uma loja específica. Procurava um balcão conhecido, um comerciante de confiança, alguém que soubesse ouvir antes de vender.
Mas a cidade crescia.
As casas começaram a se multiplicar, as construções ganharam ritmo, e Montes Claros, pouco a pouco, deixava de ser apenas um entreposto para se afirmar como centro urbano. Com isso, surgia uma nova necessidade: encontrar, com mais facilidade, aquilo que antes estava espalhado.
Foi nesse cenário, em 1952, que nasceu a Casa Benjamim Rêgo e Filhos — a conhecida Casa Zita.
Mais do que uma loja, ela era um sinal dos novos tempos.
Ali, ferragens, ferramentas e máquinas deixavam de ser apenas itens entre muitos para ocupar o centro das prateleiras e da atenção. O que antes era improviso ganhava organização. O que antes era disperso começava a se concentrar.
Entrar na Casa Zita era diferente. Havia o cheiro do metal, o brilho das ferramentas alinhadas, o peso concreto das peças que ajudariam a levantar casas, abrir caminhos, sustentar portas e telhados. Cada objeto carregava um destino: uma obra, um reparo, um começo.
E, como toda boa casa comercial daquele tempo, não era só sobre mercadorias.
Era sobre relações.
O balcão separava e unia. De um lado, o comerciante; do outro, o cliente — muitas vezes conhecido pelo nome, pela família, pela história. Conversava-se antes de comprar. Perguntava-se antes de indicar. Havia confiança, construída dia após dia.
A Casa Zita acompanhou o crescimento da cidade. Viu ruas se transformarem, bairros surgirem, construções se erguerem onde antes havia silêncio. Cada prego vendido, cada ferramenta escolhida, participava, de alguma forma, da construção de Montes Claros.
Outras lojas vieram depois. O comércio se expandiu, se modernizou, ganhou novas formas e estruturas. Mas há algo que permanece.
A memória.
Falar da Casa Zita é falar de um momento em que o comércio deixava de ser apenas necessidade para se tornar parte da identidade da cidade. É lembrar de um tempo em que comprar uma ferramenta também era trocar uma palavra, compartilhar uma história, fazer parte de um lugar.
Hoje, ao olhar para o comércio moderno, organizado e diverso, é fácil esquecer como tudo começou.
Mas, em algum ponto do passado, entre ruas movimentadas e balcões de madeira, alguém decidiu reunir ferragens, ferramentas e máquinas em um só lugar.
E esse gesto simples ajudou a construir muito mais do que casas.
Ajudou a construir uma cidade.