A Maior Viagem
Conectar o desconectado: a ideia de que precisamos construir laços de compreensão entre povos que não se conhecem sempre inspirou meu trabalho como curador. Meu desejo é sempre o de aproximar sensibilidades e construir pontes onde o contato gera algo novo no horizonte cultural. Esse desejo permeia tudo o que venho fazendo, porém algo me pareceu especialmente interessante nessa fre
nte: Minas Gerais, por conta de sua exploração mineral, é um estado com uma relação econômica fortíssima com a Ásia, porém as trocas culturais entre aquela parte do mundo e essa são praticamente inexistentes. Depois da bem sucedida iniciativa realizada por nós no Rio de Janeiro em 2012 – o projeto “OiR—Outras Ideias para o Rio” –, partimos para uma nova iniciativa em 2013: a de desenvolver outras ideias para outras cidades. Daí nasceu “BHÁsia - Ásia Ocupa a Cidade”. Essa oportunidade surge a partir de uma plataforma de intercâmbio cultural que o banco HSBC vem desenvolvendo mundialmente. Para essa edição convidamos artistas que desenvolvem obras espetaculares pelo mundo e possuem pleno domínio do trabalho em grande escala, para que, com total liberdade, criassem intervenções artísticas no espaço público de Belo Horizonte. Fruto de suas imaginações latentes, artistas da China, Índia e Japão partiram para um novo território de invenção: explorar o espaço simbólico de uma cidade para eles desconhecida; atuar com materiais e técnicas disponíveis nesse local, distintas do seu habitual; experimentar o novo no distante, assumindo o risco fascinante de fazê-lo no espaço público. A surpresa ao longo do processo foi que a reunião desses artistas resultou numa metáfora da própria ideia de viagem: a viagem entre lugares distantes e desconhecidos, tendo cada artista sua própria obra como veículo para essa jornada. A artista chinesa Jennifer Wen Ma criou um lugar imaginário na Barragem Santa Lúcia – uma ilha inventada, com seus canais e caminhos próprios. Sua vegetação foi meticulosamente pintada a mão com tinta nanquim preta. Essas plantas, inicialmente cegadas de sol por conta do pigmento que as recobre, sentem a necessidade de sobreviver e, com um esforço espetacular, brotam verdes e potentes em meio às folhas negras. Essa ilha pode ser visitada pelo público em pedalinhos, que permitem uma visualização de todos os seus delicados detalhes paisagísticos e arquitetônicos. Essa ilha representa uma utopia invertida, onde a suprema dificuldade nos faz felizes e fortes novamente. Para chegarmos numa ilha – um destino – seria necessário um barco. E aqui entra de forma poética a obra desenvolvida pelo indiano Subodh Gupta, que inverteu o conceito tradicional do barco, oferecendo a Belo Horizonte, uma cidade sem mar, um enorme barco cheio d’agua adentrando a cidade pela montanha da Praça do Papa, no Alto do Mangabeiras. E assim como propõe o poeta Jorge de Lima – “Há sempre um copo de mar para um homem navegar” –, Gupta traz o sonho do mar para o interior desse barco que brota de dentro da terra. Um barco que nos leva em direção a uma utopia perdida. O japonês Tatzu Nishi é conhecido pelas suas espetaculares instalações onde intervém sobre monumentos públicos. Diferentemente do que costuma produzir, em Belo Horizonte ele se interessou pela ideia de buscar uma chaminé para colocar uma casa sobre ela. A metáfora é interessante: a ideia de habitar o mais inusitado lugar possível. Faltam, porém, chaminés antigas em Belo Horizonte capazes de suportar uma casa em seu topo. A proposta foi ficando mais audaciosa quando propusemos construir uma chaminé nova para ele, em pleno estacionamento da rodoviária, um dos grandes marcos da cidade. Essa casa suspensa no céu de Belo Horizonte marca um outro extremo simbólico da ideia de viagem: o nosso ponto de partida é inatingível, irretornável. O lar é uma abstração, um dado passado e, no mundo atual, o aconchego não passa de uma ilusão. A casa, com suas luzes acesas e chaminé soltando fumaça, fala desse lugar que só existe em nossa memória. O impressionante artista chinês Zhang Huan, que possui uma linguagem surrealíssima com suas grandes esculturas, instalações e pinturas de cinzas, surgiu com algo completamente surpreendente para essa mostra: uma urna ancestral chinesa construída em proporções gigantescas que deveria ser instalada em plena Praça da Liberdade. Na China, existe uma tradição milenar de se construir urnas em vida, onde são depositados os bens afetivos de uma pessoa quando ela morre. Esses bens serão enterrados junto com seu corpo, para que o acompanhem na última viagem de quem os guardou com tanto afeto. Essa urna gigante será feita de minério de ferro, maior riqueza do subsolo de Belo Horizonte. O público poderá entrar nessa urna e vivenciar a dimensão dessa escala de casa para a viagem de uma vida a outra. De um barco a uma ilha, de uma casa a uma urna: a maior viagem que podemos fazer é ousar nos permitir ser inoculado pela criatividade de outras culturas. A Ásia é o lugar mais diametralmente oposto ao Brasil no globo terrestre. Seu ponto de vista é necessariamente invertido ao nosso. E esse projeto é, de certa forma, uma oportunidade de se ver o mundo ao contrário. Esse contato com o estrangeiro através dos tempos foi a base que permitiu que a identidade brasileira se definisse, ainda que antropofagicamente lasciva – nosso apetite pede diversidade. É hora de experimentarmos outros pratos que nos façam entender melhor quem somos, é a oportunidade de vivenciar a maior viagem. Marcello Dantas, curador