12/12/2018
A CRASE SEM CRISE
“A crase sem crise” é o nome de um livro (de 126 p.) que indicamos ao leitor. Seu autor é Cliceu Laibida (Blumenau: Edifurb, 2009).
Outro livro sobre a crase (145 p.), que também indicamos ao leitor, chama-se “Decifrando a crase”, de Celso Pedro Luft (São Paulo: Globo, 2005).
Mas o que é a crase? E por que (motivo) não existe crase antes de palavras masculinas?
Resposta para a primeira pergunta: crase é a contração da preposição “a” com o artigo “a(s)”, ou com os p**nomes demonstrativos “a(s), aquele(s), aquela(s), aquilo”.
Pois bem, mas o que é contração? E preposição? E artigo? E p**nome? E p**nome demonstrativo?
Calma lá, leitor, calma lá, não estamos diante de nenhum bicho de sete cabeças.
Vejamos, primeiramente, a preposição: “Palavra invariável que liga outras palavras, estabelecendo relação entre elas” (Mattos: Laibida). Exemplos (de, a, com): Ela gosta “de” chocolate. Fomos “a” Brasília. Estamos “com” saudade.
E, avisando o leitor de que deixaremos as definições de “p**nome” e “p**nome demonstrativo” para uma segunda Aulinha sobre a crase, passamos agora ao “artigo” (e perguntamos): o que é artigo?
Ora, os artigos definidos são as palavrinhas “o, a” e seus plurais, “os, as”, e são os únicos que aqui nos interessam para esta introdução ao estudo da crase. Quanto aos artigos indefinidos (um, uma, uns, umas), pedimos que continuem onde estão, ou seja, “em estado de dicionário”, como disse o poeta.
Mas e a “contração”? O que vem a ser uma contração?
Oh! sim, a contração. É verdade... vamos a ela.
Antes, porém, uma advertência: é preciso saber distinguir “contração” e “combinação”.
Na frase: Antônio e Manuela foram “ao” teatro, esse “ao” é uma combinação do artigo masculino "o" com a preposição “a”, que acompanha o verbo “ir” (ir a). E, aqui, devemos notar que, obviamente, não poderia haver perda de fonema por parte da preposição, um simples “a”.
Já nas contrações:
de + a = da,
de + as = das,
de + o = dos,
de + os = dos,
houve perda de fonema por parte da preposição “de”, que perdeu o “e” em todos os exemplos acima, transformando-se em “do, da” e seus plurais.
Ufa! E, finalmente, eis que temos a faca e o queijo na mão para entender (e explicar) a primeira pergunta da nossa Aulinha: o que é a crase?
Resposta: crase é o nome que se dá à “contração” (oral ou escrita) de dois “aa” e, nesse caso, o primeiro “a” é uma preposição, e o segundo “a” é um artigo.
Sim, esse fenômeno recebe o nome de crase e é marcado com o acento grave (`), acento indicador de crase, ou sinal de crase.
Claro está que, em bom Português, nenhum “a” tem crase, e sim acento grave. Não devemos confundir crase com acento grave.
Na frase:
A menina foi à sapataria, temos alguém (a menina) que vai a algum lugar, e na construção “ir a” (foi a) esse “a” é uma preposição, inseparável do verbo “ir” nesse caso.
Já a “sapataria” é um substantivo que, digamos assim, “necessita” de um “a” (artigo), para ter um sentido mais completo em uma frase como, por exemplo, “A sapataria foi reformada”. Soaria estranho dizer: “Sapataria foi reformada”, não?
Vamos agora decompor a nossa frase em duas partes, para melhor explicar o fenômeno da crase.
Parte um: A menina foi a (esse primeiro “a” é preposição) + parte dois: “a” sapataria (e esse segundo “a” é artigo).
Diremos então:
A menina foi a a sapataria. (O primeiro “a” equivale a “para, e o segundo “a” equivale ao “a” mesmo.)
E eis aqui a crase, nada mais e nada menos do que a contração (ou fusão) de dois “aa” arrematados por um acento grave (`):
A menina foi à sapataria.
E, passando agora à segunda pergunta da nossa Aulinha (“E por que (motivo) não existe crase antes de palavras masculinas?”), ficou fácil ver que, em frases como “Eu vou ao mercado”, o “a” preposição de “ir a” não vai se contrair com um artigo masculino (“o”), e sim combinar-se com esse artigo, formando a palavra “ao”.
Ninguém dirá: Eu vou a + a mercado, transformando o mercado em palavra feminina; diremos sempre: Eu vou ao mercado.
Quanto aos casos da existência de crase antes de palavras masculinas, é verdade que diremos coisas como:
“A maioria dos homens daquela festa usava barba à Cristo”.
Explicação para o fenômeno: temos subentendida aí a expressão “moda de”, ou “maneira de”.
A maioria dos homens daquela festa usava barba à (moda de) Cristo.
A maioria dos homens daquela festa usava barba à (maneira de) Cristo.