04/05/2026
Falar sobre o papel de uma mãe ou pai de santo na vida de um filho de santo exige honestidade, não romantização. Somos adultos pensantes, com cérebros e inteligentes (na grande maioria).
Existe algo que precisa ser dito com clareza: sacrifício pago não é sacrifício. Quando há cobrança, especialmente valores altos, existe uma prestação de serviço. E isso, por si só, não é um problema. Cada pessoa tem o direito de atribuir valor ao seu tempo, ao seu conhecimento e à sua dedicação. O ponto de conflito começa quando essa cobrança vem acompanhada de um discurso de doação, como se não houvesse troca financeira envolvida.
Inclusive, é válido que exista cobrança pelo tempo, pela dedicação e pelo trabalho espiritual. Isso faz parte da realidade de quem vive disso ou escolheu estruturar sua atuação dessa forma. Mas é preciso lembrar de algo essencial: ainda assim, foi uma escolha. Independentemente de dom, missão ou caminho espiritual, ninguém é obrigado a estar ali. Cada mãe e pai de santo escolheu dedicar o seu tempo, escolheu exercer esse papel, escolheu atender, orientar e conduzir. E aquilo que é fruto de escolha não pode depois ser usado como argumento de cobrança emocional.
Não é coerente cobrar por obrigações, manutenção de estadia, materiais e, ao mesmo tempo, exigir gratidão como se tudo tivesse sido feito por amor e renúncia. Quando há pagamento, há uma relação econômica. E numa relação econômica, o pagamento encerra a obrigação principal. O que foi cobrado foi pago. Isso não gera dívida emocional.
Gratidão não nasce da cobrança. Gratidão nasce daquilo que é dado de graça, do tempo oferecido sem preço, da presença verdadeira, do cuidado que não vem condicionado a valores. Onde existe preço, existe serviço. E serviço não pode ser usado como ferramenta para cobrar submissão, fidelidade ou silêncio.
É importante lembrar também de onde vem a nossa ancestralidade. Nossos caminhos espirituais foram construídos em um contexto de exploração, onde pessoas eram obrigadas a servir sem escolha e sem remuneração. Hoje não vivemos mais nessa realidade. Hoje existe escolha. Existe negociação. Existe pagamento. E justamente por isso, não se pode naturalizar práticas que transformam cobrança financeira em cobrança emocional.
Quem escolhe viver a religião como missão pode, de fato, sentir que entrega mais do que dinheiro pode pagar. Isso é legítimo. Mas esse sentimento não pode ser usado para constranger, humilhar ou acusar filhos de ingratidão depois que houve cobrança financeira e pagamento dessa cobrança.
A linha precisa ser clara.
Se é serviço, deve ser tratado como serviço: com respeito, transparência e sem chantagem emocional. Se é doação espiritual, então não há cobrança, e a gratidão surge de forma natural, nunca exigida e se não surge, aí sim, cabe uma cobrança emocional.
Misturar essas duas coisas enfraquece o vínculo, cria confusão e abre espaço para abusos.
Respeito não se impõe pela culpa. E fé não pode ser usada como moeda de cobrança emocional.
Mãe Vanessa D'Yemanjá Bocí Afalomí
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