23/03/2026
Já escrevi sobre os Enamorados pela Cabala e pela Alquimia. Hoje trago uma perspectiva diferente: o Vedanta.
Os Enamorados e a Superação do Agrado e Desagrado
Quando a individualidade surge, nasce a separação. O que era plenitude se fragmenta em “eu” e “outro”, e com isso instala-se a angústia. É desse solo que brota o arquétipo dos Enamorados.
Eles não são uma história sobre amor romântico. São a representação de manas — a mente que, apropriada pelo ego, se orienta para o exterior. Manas opera por atração e repulsa: o que agrada, aproxima; o que desagrada, repele.
Quando o ego busca se completar, projeta no outro a imagem da totalidade perdida. Surge o “amor” como reação de agrado: aquilo que atrai torna-se objeto de desejo. Mas esse desejo é ambíguo, pois carrega a frustração. Aproximo-me para completar-me, mas o outro resiste à fusão.
Aqui se coloca uma questão: nem todo desejo deve ser seguido e nem todo desconforto deve ser evitado. Há desejos que, se seguidos, desalinham o ser de sua verdade. E há desconfortos que, se evitados, mantêm o ego em sua jaula dourada.
A imagem do arcano mostra duas figuras e um anjo acima — este anjo é buddhi, o discernimento que não se perde no vaivém de agrado e desagrado.
E é aqui que se revela a distinção entre dois tipos de relação: Há relações que se organizam para evitar o conflito. Sustentam-se por omissões cuidadosas, por uma coreografia onde ninguém toca nas feridas. Oferecem apenas o reflexo que o ego deseja ver.
Há relações que só se sustentam quando o conflito pode ser atravessado. Não confundem harmonia com ausência de atrito. O desconforto, acolhido com discernimento, não é inimigo do amor, mas seu amadurecedor. Nelas, o desejo é colocado sob a luz de buddhi para que se compreenda se é dharmico ou adharmico.
O encontro amoroso, quando não reduzido a manas, torna-se campo de despertar. O outro deixa de ser objeto que completa e passa a ser espelho.
Continua nos comentários