02/10/2026
No Reino Unido, a resposta já começou a sair do campo das possibilidades e chegar à prática assistencial.
Um dos exemplos é o Flok Health, serviço de fisioterapia digital baseado em inteligência artificial utilizado em regiões atendidas pelo NHS, o sistema público de saúde britânico.
Por meio de um aplicativo, o paciente passa por uma avaliação e recebe um programa personalizado, com sessões de fisioterapia e exercícios que são adaptados de acordo com sua evolução.
Em um piloto realizado em Cambridgeshire e Peterborough com mais de 2.500 pacientes, a implementação do serviço esteve associada a uma redução de 55% na fila de espera para dor lombar.
O ponto mais interessante talvez esteja justamente em utilizar a tecnologia para ampliar o acesso, apoiar o autocuidado e direcionar recursos presenciais para os pacientes que apresentam maior complexidade ou realmente necessitam de avaliação clínica direta.
Outras ferramentas também vêm sendo estudadas. O selfBACK, por exemplo, utiliza inteligência artificial para oferecer recomendações individualizadas de exercícios, atividade física e educação para pessoas com lombalgia.
Em um ensaio clínico randomizado, pacientes que utilizaram o aplicativo associado ao tratamento habitual apresentaram redução da incapacidade relacionada à dor lombar quando comparados ao cuidado habitual isolado. Entretanto, a diferença média encontrada foi pequena e sua relevância clínica permanece motivo de discussão.
Tecnologia digital não deve ser confundida com tratamento autônomo para todos os pacientes com dor. Dor lombar pode ter diferentes mecanismos, apresentações clínicas, fatores psicossociais e sinais de alerta. Avaliação, diagnóstico diferencial e definição da estratégia terapêutica continuam exigindo raciocínio clínico.
Para a Medicina da Dor, talvez a pergunta mais importante não seja se a IA substituirá o atendimento presencial, mas como integrar inteligência artificial, fisioterapia digital e atendimento médico para entregar o cuidado certo, ao paciente certo e no momento certo?
O futuro do tratamento da dor provavelmente não será exclusivamente digital nem exclusivamente presencial. Será cada vez mais integrado, individualizado e baseado em evidências.
*Fontes: NHS / Cambridgeshire Community Services NHS Trust; estudos clínicos do selfBACK.