28/02/2025
As “bruxas” e o medo da quaresma.
Eis que mais uma vez se ergue a poeira das velhas superstições, como um véu roto que tenta lançar sobre os passos das Bruxas. Falam da Quaresma como um tempo de exílio, de contenção, de jejum forçado às nossas artes. Dizem que as trevas nos rondam nesta estação, como se não fôssemos nós as próprias guardiãs da Noite.
Mas deixemos claro: nós, Bruxas, não recuamos diante do espectro de Quaresma, nós a devoramos. Onde vemos privação, nós vemos potência. Onde temem o silêncio, nós escutamos os trêmulos ventos do Outro Lado. Onde impõem jejuns, nós nos banqueteamos com a energia que permeia o ar rarefeito. Pois a Quaresma não nos lança sombras; ela nos entrega o próprio tecido do mistério para tecermos nossa feitiçaria.
Nós queremos distantes, hibernantes, referências de um calendário que não nos pertence. Mas que ironia: este é justamente o tempo em que o véu entre os mundos se afina, em que a carne vacila e o espírito se amplifica. Se o mundo cristão coleta suas luzes, nós acendemos nossas velas. Se se afastarem dos prazeres, nós dançamos em torno do fogo. Se jejuam da carne, nós nos embriagamos da essência que se exala da própria terra.
Afinal, de que teríamos medo? Do arrependimento que nunca nos serviu? Da penitência que jamais se assentou em nossas almas livres? Da promessa de um inferno que não nos toca? Ora, se as chamas ardem, queimemos junto delas, pois o fogo é a primeira oferenda que conhecemos.
É nesta energia de silêncio e expurgo que a Bruxa se fortalece. Os que nos olham de fora talvez pensem que nos escondemos, mas não. Estamos nos cantos, nas encruzilhadas, nas fendas do mundo, absorvendo cada filamento de poder que vagueia esquecido. Estamos coletando os brotos das reservas alheias, transformando-as em encantos. Porque a energia não se perde, e se eles a abandonaram, nós a recolhemos.
Que nos temam, então, se assim souber. Mas saibam que, enquanto alguns se esvaziam, nós nos preenchemos. Enquanto alguns silenciam, nós conjuramos. Enquanto eles apagam suas luzes, nós ascendemos aos reinos onde o medo não existe.