23/09/2026
A língua portuguesa está a mudar. E isso não é um problema.
Vi recentemente circular nas redes sociais uma publicação sobre uma professora de Português que explicou a diferença entre “obrigado” e “obrigada”. A publicação gerou uma enorme discussão e, como acontece tantas vezes nas redes sociais, rapidamente uma explicação de gramática se transformou numa discussão muito maior.
Como professora de Inglês e de Português para estrangeiros e como tradutora, este assunto fez-me pensar não tanto na polémica em si, mas naquilo que ela revela sobre a nossa relação com a língua.
Comecemos pelo princípio.
Na norma-padrão tradicional, “obrigado” e “obrigada” variam de acordo com a pessoa que agradece:
Um homem diz “obrigado”.
Uma mulher diz “obrigada”.
É uma regra que faz parte da gramática tradicional e que, naturalmente, deve ser ensinada quando ensinamos Português.
Mas ensinar uma regra não significa dizer que a língua é imutável.
Muito pelo contrário.
As línguas estão constantemente a mudar.
Palavras desaparecem, outras surgem, algumas mudam de significado, expressões que antes eram consideradas inadequadas entram no uso corrente e outras deixam de ser utilizadas.
Na verdade, uma língua que não mudasse seria uma língua morta.
Por isso, não me convence muito o argumento de que “o Português já é suficientemente difícil, não precisamos de inventar palavras novas”.
As palavras novas não são, por si só, um problema.
O problema começa quando confundimos coisas diferentes: uso, evolução linguística e norma-padrão.
E é aqui que acho que a discussão sobre formas como “todes”, “amigues” e outras propostas de linguagem inclusiva se torna interessante do ponto de vista linguístico.
Não precisamos de ridicularizar essas formas para reconhecer que não fazem parte da norma-padrão tradicional do Português.
Da mesma maneira, reconhecer que determinadas comunidades utilizam ou propõem novas formas não significa que tenhamos de ensinar essas formas como se fossem, neste momento, a norma-padrão.
Podemos fazer as duas coisas.
Podemos observar a mudança e, ao mesmo tempo, ensinar a regra.
Podemos explicar que uma determinada forma existe, porque surgiu, quem a utiliza e com que objetivo, sem necessariamente dizer que ela passou a ser a forma “correta” segundo a norma-padrão.
Aliás, é isso que fazemos constantemente quando ensinamos línguas: distinguimos aquilo que é considerado norma, aquilo que é uso corrente, aquilo que é regional, informal, histórico ou simplesmente uma forma que está a surgir.
E acho que é precisamente aqui que a discussão das redes sociais perde, muitas vezes, alguma nuance.
Respeitar as pessoas não é incompatível com ensinar gramática.
E ensinar a norma-padrão também não significa negar que a língua evolui.
Uma coisa não invalida a outra.
Como professora e tradutora, uma das coisas que mais me fascina nas línguas é precisamente o facto de elas nunca estarem completamente paradas.
Por isso, talvez a pergunta não devesse ser “quem está certo?”
Talvez devêssemos perguntar:
O que é norma? O que é uso? O que está a mudar? E como ensinamos tudo isto sem transformar a língua numa guerra?
Porque, no fim de contas, uma língua pode mudar sem que a gramática deixe de existir.
E talvez seja essa a parte que estamos a esquecer. 🙂
Como professora e tradutora, estes debates interessam-me particularmente porque nos obrigam a pensar não apenas no que dizemos, mas também em como as línguas funcionam, mudam e evoluem.
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